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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Chorei por gente que nunca conheci


"A distância faz umas coisas engraçadas com o coração da gente, torna-o frouxo, contamina o sangue com emoções cruas, cria imunidade contra a razão. De muito longe, eu acompanhei, no domingo, pelo Twitter, as notícias do incêndio na boate Kiss — “beijo”, seria a sua tradução para o português. Beijo da morte.
Alguém escreveu, “Quando um filho perde um pai, ele vira órfão. Quando um pai perde um filho, ele é o quê? Nada, mais nada”.
Do banco de passageiros do meu Chevrolet Malibu, atravessando o deserto ao longo da fronteira do México com o Arizona, onde sou chefe de redação do “New York Times”, chorei — por gente que nunca conheci, por futuros interrompidos.
Minha filha de 3 anos cochilava no banco de trás.
Chorei de raiva pelas mortes desnecessárias. Por que não havia uma luz iluminando a única saída de emergência da boate? Por que não havia outras saídas de emergência? Por que ninguém se deu conta da estupidez que é brincar com pólvora, ingrediente chave de efeitos pirotécnicos, em lugares cheios, fechados e forrados com um tipo de isolante acústico altamente inflamável?

No dia seguinte, enquanto os mortos eram velados em um ginásio, a perícia examinava os escombros e a polícia detinha os mais prováveis culpados: os integrantes da banda e um dos sócios da boate. O povo tem sede de justiça. As detenções são o seu copo d’água.
Temos raiva, mas não é raiva que impulsiona mudanças.
Um dia após a tragédia, prefeitos de várias cidades decidem intensificar a fiscalização de casas noturnas, como se, de supérfluo, segurança tivesse passado a ser necessidade.
As causas do incêndio em Santa Maria não são únicas. Mas, mesmo neste mundo globalizado em que vivemos, lições que poderiam ter sido aprendidas com semelhantes tragédias ocorridas em outros países, em um passado não tão distante, não cruzaram fronteiras.

Em 2003, os escombros de uma boate em Rhode Island, nos Estados Unidos, ainda esfumaçavam quando eu cheguei por lá para apurar uma matéria sobre um incêndio que havia matado cem pessoas durante o show de uma banda de rock.
O fogo começou quando uma faísca dos efeitos pirotécnicos usados pela banda pegou no isolante acústico que forrava o palco. As chamas se espalharam rapidamente. Uma fumaça tóxica, asfixiante, encheu o lugar, sugando o ar de quem tentava respirar para manter-se vivo. As luzes se apagaram; não havia como achar à saída de emergência. Houve gente que morreu no banheiro, pensando, talvez, que a sua porta de entrada fosse, na verdade, porta de saída.

A boate de Rhode Island estava super-lotada. A Kiss estava “megamente lotada”, como escreveu o DJ trabalhando na noite do incêndio, na sua página do Facebook.
Os donos da boate de Rhode Island — um deles, na época, um respeitado repórter de televisão — responderam a processos civis e criminais. Não admitiram a culpa, mas também não contestaram as acusações, uma manobra legal que lhes permitiu serem condenados sem serem julgados. O ex-repórter cumpriu pena suspensa de prisão por dez anos. O seu sócio passou três anos na prisão. Os familiares das vítimas e os sobreviventes receberam mais de US$ 150 milhões em indenizações.

O incêndio em Rhode Island poderia ter sido evitado, assim como o incêndio na boate República Cromagnon em Buenos Aires em 2004, que matou 194 pessoas 11 anos após o governo argentino ter imposto uma séria de exigências às casas noturnas do país, entre elas a instalação de múltiplas saídas de emergência. O ímpeto para essas exigências? Um incêndio em uma boate em Buenos Aires em 1993, que matou 17 jovens durante uma festa de formatura.

Na noite em que pegou fogo, a República Cromagnon tinha alvará de funcionamento, mas não tinha extintores de incêndio.
O tempo passa, a gente se esquece dos perigos evitáveis, esquece das regras, esquece das leis, molha a mão do fiscal para que ele ignore a ausência do que deveria estar presente.
Dinheiro e cadeia são elementos importantes do esforço de se fazer justiça.
Raiva e choro são catárticos para o coração de quem está longe ou perto; para a dor, não existem fronteiras.

O que causa mudanças são regras — impostas, sim, mas de que vale uma regra imposta se ela não é respeitada?"
Fernanda Santos - “The New York Times” 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

No Maranhão

Para nascer, Maternidade Marly Sarney;
- Para morar, escolha uma das vilas: Sarney, Sarney Filho, Kiola Sarney ou, Roseana Sarney;
- Para estudar, há as seguintes opções de escolas: Sarney Neto, Roseana Sarney, Fernando Sarney, Marly Sarney e José Sarney;
- Para pesquisar, apanhe um táxi no Posto de Saúde Marly Sarney e vá até a Biblioteca José Sarney, que fica na maior universidade particular do Estado do Maranhão, que o povo jura que pertence a um tal de José Sarney;
- Para inteirar-se das notícias, leia o jornal O Estado do Maranhão, ou ligue a TV na TV Mirante, ou, se preferir ouvir rádio, sintonize as Rádios Mirante AM e FM, todas do tal José Sarney. Se estiver no interior do Estado ligue para uma das 35 emissoras de rádio ou 13 repetidoras da TV Mirante, todas do mesmo proprietário, do tal José Sarney;
- Para saber sobre as contas públicas, vá ao Tribunal de Contas Roseana Murad Sarney (recém batizado com esse nome, coisa proibida pela Constituição, lei que no Estado do Maranhão não tem nenhum valor);
- Para entrar ou sair da cidade, atravesse a Ponte José Sarney, pegue a Avenida José Sarney, vá até a Rodoviária Kiola Sarney. Lá, se quiser, pegue um ônibus caindo aos pedaços, ande algumas horas pelas ‘maravilhosas’ rodovias maranhenses e aporte no município José Sarney.
Não gostou de nada disso? Então quer reclamar? Vá, então, ao Fórum José Sarney, procure a Sala de Imprensa Marly Sarney, informe-se e dirija-se à Sala de Defensoria Pública Kiola Sarney…
Seria cômico se não fosse tão triste….
Infelizmente, o texto é verdadeiro…
MAS QUANDO ALGUÉM DA FAMÍLIA SARNEY FICA DOENTE, O MELHOR HOSPITAL DO MARANHÃO É O AEROPORTO, NUM VÕO PAGO COM DINHEIRO DO CONTRIBUINTE PARA SÃO PAULO, E RESERVA ASSEGURADA NO HOSPITAL SÍRIO LIBANÊS OU ALBERT EINSTEIN.

sábado, 5 de janeiro de 2013

A horrível verdade sobre o estupro em Nova Délhi


Quando adolescente, aprendi a me proteger. Nunca ficava sozinha, se possível, e andava depressa, cruzando os braços sobre o peito, recusando todo contato visual ou mesmo um sorriso. Abria caminho no meio da multidão curvando os ombros para frente, e evitava sair de casa depois do escurecer, se não fosse num carro particular. Numa idade em que as jovens em todos os outros lugares começam a fazer suas primeiras experiências com um estilo mais ousado de vestuário, eu usava roupas duas vezes maiores do que o meu tamanho. Ainda não consigo me vestir de forma a parecer atraente sem ter a sensação de estar me expondo ao perigo.
A situação não mudou quando cheguei à idade adulta. O spray de pimenta não existia ainda e minhas amigas, todas de classe média ou média alta como eu, carregavam alfinetes ou outros objetos como armas no caminho da universidade e do emprego. Uma delas andava com uma faca e insistia que eu devia fazer o mesmo.
Recusei, mas havia dias em que ficava tão enraivecida que poderia usá-la - ou, pior ainda, alguém poderia usá-la contra mim.
O persistente concerto de assobios, miados, palavras sibiladas, alusões sexuais ou ameaças abertas continuaram. Grupos de homens andavam pelas ruas vadiando, e sua forma de comunicação eram as canções de filmes indianos que viviam cantando, repletas de duplos sentidos.
Para deixar claras suas intenções, mexiam a pélvis para frente quando uma mulher passava.
Não eram apenas os ambientes públicos que eram pouco seguros. Até na redação de uma importante revista onde eu trabalhava, no consultório de um médico, até mesmo numa festa privada - era impossível escapar da intimidação.
No dia 16 de dezembro, como o mundo agora sabe, uma mulher de 23 anos voltava para casa com o namorado depois do assistir ao filme As aventuras de Pi num shopping center de Délhi. Quando tomaram o que lhes pareceu um ônibus, os seis homens que estavam no veículo estupraram e torturaram a mulher de maneira tão brutal que destruíram seus intestinos. O ônibus fora apenas um chamariz. Eles espancaram brutalmente também o namorado da jovem e jogaram os dois fora do veículo, deixando-a à beira da morte.
A jovem não se rendeu. Ela começara aquela noite vendo um filme sobre um sobrevivente, e provavelmente sentiu-se determinada a sobreviver também. Então ela realizou outro milagre. Em Délhi, uma cidade onde a degradação das mulheres é comum, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas e enfrentaram a polícia, as bombas de gás lacrimogêneo e os canhões de água para expressar sua revolta. Foi o maior protesto jamais realizado na Índia contra a agressão sexual e o estupro até aquele momento, e desencadeou manifestações em toda a nação.
A fim de proteger a identidade da vítima, seu nome não foi divulgado.
Mas embora ela continue sem nome, não ficou sem rosto. Para vê-lo, bastou que as mulheres se olhassem no espelho. A plena dimensão da sua vulnerabilidade finalmente foi compreendida.
Quando fiz 26 anos, mudei-me para Mumbai. A megalópole comercial e financeira tem sua carga de problemas específicos, mas, em termos culturais, é mais cosmopolita e liberal do que Délhi. Ainda zonza com a liberdade recém-conquistada, comecei a fazer matérias sobre o bairro da prostituição e percorria subúrbios perigosos tarde da noite - sozinha e usando transporte público. Acho que a minha experiência em Délhi teve um resultado positivo: fiquei agradecida pelo ambiente comparativamente seguro de Mumbai e resolvi aproveitar ao máximo.
Mas a jovem jamais terá esta oportunidade. Na manhã de sábado, 13 dias depois de ter sido brutalizada, esta estudante de fisioterapia, que sem dúvida sonhara em melhorar a vida das outras pessoas, perdeu a sua. Morreu por falência múltipla dos órgãos.
A Índia tem uma legislação contra o estupro; assentos reservados para as mulheres nos ônibus, policiais femininas; linhas especiais para pedir a ajuda da polícia. Mas estas medidas não têm tido eficiência diante de uma cultura patriarcal e misógina. Trata-se de uma cultura que acredita que o pior aspecto do estupro é a corrupção da vítima, que nunca mais poderá encontrar um homem para casar com ela - e que a solução é casar com o estuprador.
Estas crenças não se restringem às salas de estar, mas são expressas abertamente. Nos meses anteriores ao estupro coletivo, alguns políticos de destaque atribuíram o aumento das estatísticas sobre estupro à crescente utilização dos celulares pelas mulheres e ao fato de elas saírem à noite. "Somente porque a Índia conseguiu a liberdade depois da meia-noite não significa que as mulheres possam se aventurar a sair depois do anoitecer", disse Botsa Satyanarayana, líder do Partido do Congresso do Estado de Andhra Pradesh.
Denúncias. Mudar é possível, mas as pessoas devem denunciar logo os casos de estupro e de agressão sexual para que a polícia possa realizar as investigações, e os casos levados aos tribunais possam tramitar rapidamente e não demorar anos a fio. Dos mais de 600 casos de estupro relatados em Nova Délhi em 2012, somente um levou à condenação. Se as vítimas acreditam que receberão justiça, se mostrarão mais dispostas a falar. Se os supostos estupradores temerem as consequências de suas ações, não atacarão as mulheres nas ruas impunemente.
As dimensões dos protestos públicos e na mídia deixaram claro que o ataque constituiu um divisor de águas. A horrível verdade é que a jovem atacada no dia 16 teve mais sorte do que muitas vítimas de estupro. Ela foi uma das raras mulheres que receberam algo parecido com justiça. Foi hospitalizada, sua declaração foi gravada e em poucos dias todos os seis suspeitos do estupro foram presos e, agora, estão sendo processados por assassinato. Tal eficiência é algo incomum na Índia.
Não foi a brutalidade das agressões contra a jovem que tornou sua tragédia inusitada; foi o fato de que esta agressão, finalmente, provocou uma resposta
Sonia Faleiro

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Saiba o que a vitória de Obama significa para o mundo

O presidente dos EUA, Barack Obama, foi reeleito. E agora?


O que seu segundo mandato significa para as relações dos EUA com outros países e regiões?

MÉXICO E AMÉRICA LATINA

Will Grant, da BBC no México, diz: "Há um suspiro de alívio quase audível no México com a reeleição de Obama. Ainda há uma percepção ampla no país, e ao redor da América Latina, de que republicanos não representam ou compreendem o interesse de hispânicos nos EUA, nem, por extensão, de suas famílias ao sul da fronteira. No entanto, mais imigrantes ilegais foram deportados sob a gestão de Obama do que por qualquer governo desde os anos 1950.

Ainda assim, muitos na América Latina esperam que um segundo mandato de Obama signifique uma relação melhor com os vizinhos dos EUA. Muitos acham que Obama não cumpriu o que prometeu sobre a América Latina - seja no que diz respeito às relações políticas com a Venezuela, ao embargo comercial com Cuba ou à violenta guerra contra as drogas no México.

Entretanto, o voto que mais afetará o México não é o que definiu o ocupante da Casa Branca, mas o sobre a legalização da maconha no estado de Washington e no Colorado. Muitos analistas esperam que a decisão de passar a medida desfira um profundo golpe nos enormes lucros dos poderosos carteis de droga mexicanos. A maconha é responsável por boa parte de seu lucro, no valor de US$ 6 bilhões (R$12,3 bilhões) por ano, através do tráfico ilegal.

EUROPA

O correspondente da BBC em Bruxelas Chris Morris afirma: "A Europa acordará hoje com um suspiro de alívio. As pesquisas de opinião sempre mostraram o presidente Obama como mais popular que o governador Romney no continente - para a maior parte dos governos, também, a continuidade em Washington é melhor do que uma troca de guarda. O secretário do Tesouro americano, Tim Geithner - assim como o próprio presidente -, está profundamente envolvido com discussões sobre a zona do euro. A União Europeia está tão envolta em debates internos sobre a crise na zona do euro que não quer distrações externas. A UE também vem trabalhando de forma próxima ao governo Obama em vários itens da política externa - o Irã em particular. Mesmo que haja mudanças na equipe de Obama num segundo mandato, a vitória do presidente significa que não haverá uma mudança dramática de rota que as capitais europeias tenham que equacionar.

CHINA

O correspondente da BBC Martin Patience escreve, em Pequim: "A vitória do presidente Obama ocorre um dia antes do começo do congresso que determinará a mudança de liderança chinesa - o que ocorre uma vez a cada década. Então o foco dos líderes chineses está em casa - e não além do Pacífico.

Mas durante a campanha presidencial americana, ambos os candidatos foram bastante críticos da China, pressionando a China pelo que viam como práticas comerciais injustas. Alguma ressaca de dor dessas acusações pode permanecer por muito tempo depois das eleições. As relações entre os dois países passaram por momentos de tensão nos últimos anos - particularmente no que diz respeito a assuntos econômicos.

Pequim também está profundamente preocupado com a estratégia de Obama de reforçar sua presença militar na Ásia. Algumas autoridades chinesas acham que Washington está tentando conter o avanço da China. Serão esses assuntos que dominarão a relação diplomática mais importante do mundo.

AFEGANISTÃO

Quentin Sommerville, da BBC em Cabul, escreve: "Muito no Afeganistão é visto agora sob o prisma do fim da operação de combate liderada pelos EUA aqui. Uma mudança no comandante-em-chefe não deveria fazer muita diferença na política americana - houve pouca diferença entre os candidatos, para além do fato de Romney afirmar que ouviria mais os generais que estão no país.

A questão à frente de Obama agora é o quão rapidamente o restante das tropas americanas voltará para casa, e quantas serão deixadas após 2014. Os comandantes militares querem uma retirada mais gradual, e que uma força de cerca de 10 mil homens permaneça. Mas a Casa Branca, com um mandato renovado, deve pressionar por uma saída acelerada, com menos soldados e fuzileiros americanos ficando para dar assistência às forças afegãs, após 2014.

IRÃ

Mohsen Asgari, em Teerã para a BBC, escreve: "Muitos no Irã estavam preocupados, achando que se um republicano vencesse, isso significaria guerra, e acreditavam que uma vitória de Obama tornaria a vida das pessoas mais segura, porque os EUA então acelerariam a retomada das negociações por uma nova rodada de conversas sobre as ambições nucleares iranianas.

No entanto, alguns ativistas políticos iranianos acreditam que a vitória de Obama significará mais pressão sobre o Irã. 'Barack Obama goza de popularidade considerável junto à comunidade internacional, diferentemente de Romney, e isso o ajudará a reforçar a coalizão contra o Irã e pôr mais pressão sobre o país', diz Naser Hadian, professor de política da Universidade de Teerã.

ÁFRICA

Andrew Harding, da BBC em Johanesburgo, escreve: "Obama fez apenas uma visita à África subsaariana em seu primeiro mandato. O quanto isso mudará no segundo mandato? Essa questão foi, talvez compreensivelmente, pouco levantada na campanha eleitoral - que focou em assuntos domésticos e nas revoltas árabes.

Nos bastidores, a diplomacia americana sem dúvida continuará furiosamente sob demandas internacionais múltiplas. O começo de um segundo mandato deve ser marcado por mais do mesmo: esforços internacionais para retirar rebeldes da Al Qaeda do norte do Mali - por força ou negociação - e esforços para garantir que o Zimbábue e o Quênia evitem repetir a violência que marcou suas últimas eleições.

Até agora não há sinal de uma grande "Doutrina Obama" para a África - e talvez isso seja bom, dada a diversidade e a complexidade do continente.

BBC

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Preconceito contra o PT ( Extraido do Rigon )

Há em Maringá um ‘preconceito burro’ contra o PT. A propósito veja comentário do leitor em outra postagem: Eu acho tão engraçado este povo descer o cacete no PT… Estamos no terceito mandato no governo federal… Não é segredo pra ninguém que este partido mudou o país com seus projetos que beneficiam, principalmente, os mais pobres. Tem um bando de pé rapado que vem aqui falar mal do PT, mas provavelmente hoje tem uma casa que é financiada pelo projeto Minha Casa, minha vida… ou um carro também financiado e beneficiado com a redução do IPI… ou já usou uma UPA que é construída com recursos do governo Dilma assim como os postos de saúde da cidade. Tem até os(as) manés que estão estudando numa universidade particular com bolsa do ProUni e tem o displante de falar mal da Dilma. Sem contar o acesso que tiveram nos ultimos anos aos bens de consumo, a uma vida mais justa… Quantos estão empregados.. vejam o índice de desemprego no país hoje e como estava há 10 anos atrás. Agora vem aqui dizer que o PT é isso, o PT é aquilo… o Pupin só se elegeu graças às obras do governo federal que foram feitas nesta cidade. O PT governou Maringá quando o governador era o Lerner e o presidente era FHC, num momento de intensa crise interna e externa e mesmo assim conseguiram verdadeiras proezas, como o pagamento das contas do Gianoto (que era do partido do Pupin) e do Paolicchi (indicado do Ricardo Barros). (sic)


Meu comentário: Alguns moralistas falam com votam no PT por causa do mensalação, mas não sabem ou não querem ver, que a administração Barros/Pupin usou método similar para cooptar os 11 vereadores da turma do amém. Vejam por exemplo, quando W. andrade ameaçou assinar a CPI da saúde, dizendo que conversaria com o prefeito e se não fosse atendido… A aprovação dos 40 anos para o transporte coletivo teria rendido alguns $$$, e em muitas outras situações. A diferença é que vereador é bem mais barato e alguns se vendem apenas pelo financiamento da campanha para reeleição e alguns cargos na prefeitura. Estou concordando com método? Não. Acho que as condenações dos réus do mensalação são exemplares. Que os condenados paguem na cadeia. Mas não venham com este argumento de que votaram em Pupin, contra o mensalação. Votaram por interesses, a grande maioria. Outros por burrice mesmo, burrice preconceituosa contra o PT. PT que de santo não tem nada, é tão igual aos outros partidos, com a diferença que é mais cobrado. Se Enio for o prefeito, e deverá ser, será fiscalizado e tenho certeza que não imitará o antecesssor. De nossa parte, seremos fiscais implacáveis e certamente teremos outros, como Milton Ravagnani, Pinga Fogo, O Diário como um todo.

PS: Não sou PT, nem filiado, nem militante. Sou eleitor, cidadão, contribuinte zeloso com meu dinheiro. Não gosto de ser roubado, não roubo (aproveito dinheiro do contribuinte). Em Maringá, quem muito’receptador de dinheiro público’ mal aplicado.

Akino Maringá, colaborador



sábado, 23 de junho de 2012

Dentro da lei

Embora dentro das normas constitucionais, a deposição do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, pelo Congresso tem claros indícios de que foi o desfecho de uma disputa política que se desenrola praticamente desde que ele chegou ao poder, cerca de 4 anos atrás.


Já houvera antes uma tentativa de impeachment quando surgiram as denúncias sobre os vários filhos do ex-padre católico, dois dos quais ele já reconheceu. Há outros na fila.


O escândalo sexual não foi suficiente, no entanto, para que os opositores de Lugo conseguissem levar adiante a tentativa de impeachment, mas a tragédia recente, em que morreram 11 camponeses de um movimento sem-terra e seis policiais, fez com que forças políticas majoritárias se unissem para acusá-lo de “mau desempenho de suas funções”, o que possibilitou o processo de impeachment.


Os agricultores sem-terra da Liga Nacional de Acampados, que invadem propriedades e instalam-se em tendas, receberam o aval público de Lugo, que os recebeu diversas vezes no palácio do governo e na residência presidencial, até que, em 15 de junho, seis policiais desarmados foram mortos durante a desocupação de uma fazenda em Curuguaty, a 250km de Assunção.


A reação da polícia provocou a morte de 11 camponeses e a acusação de perda de controle pelo governo.


Mesmo que a motivação seja política, não é possível classificar de golpe o que aconteceu no Paraguai, sob pena de darmos razão ao hoje senador Fernando Collor de Mello que se diz vítima de um “golpe parlamentar”, e que, em entrevista, já chegou a reivindicar de volta seu mandato presidencial.


O interessante é que Collor foi impedido pelo Congresso brasileiro num processo que teve a liderança do PT, tanto na atividade parlamentar quanto na mobilização dos chamados movimentos sociais para apoiar a decisão dos políticos.


Cassado, Collor foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal por falta de provas, o que o leva a alegar que foi vítima de um golpe.

É uma incoerência completa, portanto, que o governo brasileiro acuse um processo congressual de ilegítimo, quando já tivemos essa experiência em nossa democracia recente.


A ameaça de expulsar o Paraguai do Mercosul, além de revelar uma leitura equivocada da cláusula democrática da instituição, pode servir aos interesses da Venezuela, que até agora não foi aceita como membro pleno justamente porque o Congresso do Paraguai não deu permissão, por considerar que a Venezuela não é um país democrático.


Essa aliás, é uma outra boa discussão, pois o governo brasileiro aceita todas as manobras feitas pelo governo de Hugo Chávez na Venezuela, alegando justamente que elas, ao serem aprovadas pelo Congresso, são, portanto, legítimas. Lula chegou ao cúmulo de dizer que havia na Venezuela “democracia demais”.


Todos os governos “bolivarianos” da região — Bolívia, Equador, Argentina, Nicarágua — já promoveram diversas alterações em suas Constituições para aumentar o poder dos respectivos presidentes, em golpes seguidos à democracia, mas utilizando-se de seus próprios instrumentos legais.


Aumentaram a composição da Suprema Corte, criaram obstáculos à liberdade de expressão, mudaram as regras eleitorais para favorecer o partido que está no governo, e alegam sempre que as alterações foram feitas com a aprovação do Congresso.


Mas quando o Congresso decide contra o governante “bolivariano”, desencadeia-se imediatamente um movimento regional de constrangimento a esses parlamentos, tentando usar a cláusula democrática como instrumento de pressão.


Agora mesmo, os chanceleres da Unasul foram a Assunção tentar parar o processo de impeachment de Fernando Lugo, que logo chamaram de golpe. O chanceler Antonio Patriota foi com a instrução da presidente Dilma para “falar grosso”.


No caso de Honduras, em 2009, chegou a ser escandalosa a intromissão do governo brasileiro nos assuntos internos daquele país, a ponto de ter tentado, com a cumplicidade de Hugo Chávez, criar um fato consumado com o retorno do presidente deposto Manuel Zelaya ao país, abrigando-o na embaixada brasileira. De acordo com a Constituição de Honduras, o mandato presidencial tem o prazo máximo de quatro anos, vedada expressamente a reeleição.


Aquele que violar essa cláusula, ou propuser-lhe a reforma, perderá o cargo imediatamente, tornando-se inabilitado por dez anos para o exercício de qualquer função pública.


Foi exatamente o que Zelaya fez, tentando mudar a Constituição através da convocação de plebiscito. A cláusula pétrea da Constituição de 1982 de Honduras tinha, justamente, o objetivo de cortar pela raiz a possibilidade de permanência de um presidente no poder, pondo fim à tradição caudilhesca no país.


A preocupação tinha sentido: Honduras é o país inspirador do termo “República de bananas” ou “República bananeira” cunhado pelo escritor americano O. Henry, pseudônimo de William Sydney Porter, que, no livro de contos curtos Cabbages and Kings, (Repolhos e Reis) de 1904, usou pela primeira vez a expressão, que passou a designar um país atrasado e dominado por governos corruptos e ditatoriais, geralmente na América Central.


O principal produto desses países, a banana, era explorado pela famosa United Fruit Company, que teve um histórico de intromissões naquela região, especialmente em Honduras e Guatemala, para financiar governos que beneficiassem seus interesses econômicos, sempre apoiada pelo governo dos Estados Unidos.


Mesmo com toda a pressão do governo brasileiro e dos demais países “bolivarianos”, que conseguiram até mesmo expulsar o país da Organização dos Estados Americanos (OEA) — como ameaçam fazer agora com o Paraguai, no Mercosul — Honduras promoveu nova eleição e o presidente Porfirio Lobo está no governo, já tendo sido reconhecido por todos os demais países e retornado à OEA.




O ex-presidente paraguaio Fernando Lugo parece estar agindo com mais bom senso do que os governos da Unasul, aceitando a decisão do Congresso.

Merval Pereira

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Relatos de horror sobre a ditadura estão escondidos no anonimato

Ao lado do depoimento da ex-militante Dilma estão guardados quase mil processos em que companheiros de luta contam com detalhes técnicas de tortura adotadas pelos seus algozes




O depoimento pessoal de Dilma Rousseff, que 30 anos depois de sofrer tortura em Juiz de Fora seria eleita presidente do Brasil, é apenas uma parte num conjunto de 916 peças de horror que estavam até agora esquecidas na última sala do Conselho de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), no Edifício Maletta, no Centro de Belo Horizonte. Nesse teatro de barbárie e agonias, não há protagonistas. São histórias de centenas de militantes políticos de Minas torturados na frente de seus bebês, homens casados que se tornaram estéreis por levar choque nos órgãos genitais e mulheres que seriam violadas no anonimato das celas pelos seus algozes.





Uma das técnicas mais sádicas de tortura era a da “latinha”. “A primeira coisa que eles faziam era arrancar a roupa da gente e deixar completamente nua. Depois, colocavam descalça em cima de duas latinhas abertas, como a de salsicha, com as bordas afundando no pé. A gente tinha de aguentar até não poder mais. Se caísse ou descesse, era espancada por eles. Era um tipo de crueldade abaixo do nível humano. Era bestial”, revela o trecho de uma das vítimas, que permanece aqui no anonimato.





Outro “método” relatado nas prisões mineiras não envolvia o emprego da violência física. Na verdade, nem precisava. Seu teor era psicológico. Era usada principalmente com mães ou grávidas. Tratava-se de colocar uma criança engatinhando em cima de uma mesa para forçar a “confissão” da torturada. Caso ela não falasse, o torturador avisava que a criança poderia cair. “Manusearam meu corpo, torceram o bico dos meus seios e enfiaram a mão em mim. Um dia, eu estava arrebentada depois de ter sido torturada das 19h até as 5h da manhã quando fui estuprada pelo sargento Leo, da PM”, conta Gilse Westin Cosenza, hoje aos 68 anos, a primeira da lista de 53 pessoas indenizadas pela comissão mineira, em 2002.





Quando foi presa, aos 25 anos, Gilse era vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da PUC Minas. Ela foi levada para a cadeia com o marido, o vice-presidente do DCE da UFMG, o estudante de economia Abel Rodrigues Avelar. Os dois pertenciam à organização Ação Popular (AP). De todas as sessões de humilhação sofridas pela então estudante do curso de serviço social, para Gilse a pior envolveu a filha Juliana, aos 4 meses. “A passagem mais barra pesada, de tudo o que relatei à comissão de Minas, envolveu minha filha, que hoje está bem, tem 43 anos, é analista de sistemas e trabalha no TRE, no Rio de Janeiro. Na época, eles quase me enlouqueceram dizendo que iriam pegá-la, que eles iriam encontrá-la onde ela estivesse e que eu deveria falar o que eles queriam ouvir. Com todas as minhas forças, eu desejei ficar louca antes”, desabafa a militante, que 15 dias antes de ser presa havia entregado o bebê à irmã Gilda, casada com Henrique Sousa Filho, o cartunista Henfil, que ela chama de Henriquinho.





Ao reencontrar a filha, Juliana estava perto de completar 2 anos. Só então aprendeu a falar mamãe e papai, conhecendo os próprios pais. No longo período em que permaneceu presa, Gilse não apenas não enlouqueceu, como também nunca desistiu de lutar pela volta da democracia no Brasil. “Sou privilegiada. Muitos ficaram afetados psicologicamente pela tortura e nunca conseguiram se reerguer. Em cada uma das famílias brasileiras que viveram na nossa época, é rara aquela que não tem uma pessoa morta, torturada, banida do país ou que tenha perdido o emprego durante o regime militar”, compara. Ela promete: “Os torturadores ainda estão impunes. Jurei que enquanto estiver viva não vou parar de lutar por um país justo para nossos filhos”.





Exemplo de vida





Quando flagra uma manifestação na praça principal de Teófilo Otoni, o ex-militante da causa operária Tim Garrocho, com a autoridade que lhe concedem seus 82 anos, não consegue se segurar. Aproxima-se dos manifestantes, puxa um deles no canto, pelo braço, e diz ao pé do ouvido: “Você pode até não saber disso, mas ajudei vocês a estarem hoje reunidos aqui na praça”. Celebridade no Vale do Mucuri, Tim é exemplo de vida para os três filhos legítimos (ganhados antes de ficar preso em 12 locais diferentes), três filhos adotivos, cerca de 20 netos e cinco bisnetos. Segundo Tim, o operário que mais apanhou em Minas foi o Porfírio Francisco de Souza. “Eu o vi entrando na prisão, ainda forte, e no final, irreconhecível”, afirma.





Porfírio, militante do extinto Partido Comunista Brasileiro (PCB), morreu em 2004 em Montes Claros, aos 84 anos. “Além de choques elétricos e ter levado no pau de arara, ele sofreu com agulhadas nos dedos, entre as unhas. Chegaram até a arrancar as unhas dele na sede do antigo Dops, em BH, em 1969, logo depois do AI-5”, conta o aposentado e ex-soldado da Polícia Militar Aran Francisco de Matos, de 65, sobrinho do ex-militante.





“Aquela cambada não respeitava ninguém. Em Governador Valadares, quebraram meu braço esquerdo e me chutaram até eu vomitar sangue”, revela, sem esconder a raiva, Tim Garrocho, ex-líder sindical, que antes de ser preso chegou a ter três mandatos de vereador. “Depois do golpe, não pude crescer politicamente. Eles me liquidaram, minha esposa ficou adoentada e eu tive de vender muita coisa para me sustentar. Hoje não tenho nem aposentadoria, pois não consegui comprovar meus direitos políticos”, afirma. Com a terceira matéria sobre a tortura de Dilma nas mãos, Tim Garrocho, que acompanha desde a primeira, dá sua opinião. “Se a presidente tem memória de elefante, a minha é de 100 elefantes. Meu torturador era Klinger Sobreira de Almeida, que na época era tenente em Valadares. Antes de bater, ele tirava o relógio, para não se machucar. Não me esqueço disso.”

Luiz Ribeiro - Jornal Estado de Minas

domingo, 18 de março de 2012

A corrupção e sua Filosofia

Uma operação intelectual de indulgência à corrupção atribui ao moralismo a ideia de que o poder pode não ser corrupto.




Um dos aspectos intrigantes da política brasileira é o silêncio nas universidades e a ausência do movimento estudantil no debate e nas manifestações contra a corrupção e a impunidade, dois pilares tradicionais do poder da oligarquia, que foram transformados agora no Brasil em política pública universalizada e em padrão de governança. Isso se tornou intolerável para uma parcela expressiva da sociedade, mas não parece sequer inquietar a juventude e o meio acadêmico.



Há duas pistas óbvias a seguir para chegar à razão dessa acomodação: a domesticação do movimento estudantil pelo governo e o aparelhamento partidário das universidades. E há outra, menos difundida, mas também relevante: o uso militante da idéia de que “o poder nasce da corrupção”. Trata-se de uma assertiva do repertório de condenação do capitalismo, da globalização e, junto com isso, da democracia representativa. Mas aqui, ela passou a servir também para legitimar a corrupção como arma política de supostos portadores da verdade transformadora da sociedade, que no caso seriam o PT e seu governo.





Esse pensamento germina num ambiente de distanciamento e mesmo aversão à política, com a expansão na juventude e no sistema de ensino de uma subjetividade ávida por competência para vencer ou sobreviver no mercado e, portanto, com pouca ou nenhuma disposição para questionamentos e muito menos para engajamento em causas difíceis e conflituosas, como é o caso da campanha anticorrupção e contra a impunidade.




Indignação e perseverança




O alarido na sociedade por uma política mais comprometida com a ética e por uma justiça mais republicana ganhou corpo no Brasil em meados de 2011, depois que o jornalista Juan Arias, correspondente do jornal El País, nos chamou às falas no artigo ‘Por que os brasileiros não reagem?’. O burburinho inicial se tornou fato político a partir dos protestos de 7 de setembro. De lá para cá, as manifestações não cessaram na rede e nas ruas.



Impulsionados, no começo, pela indignação, os movimentos se multiplicaram no país e definiram uma agenda substantiva. A perseverança na mobilização já rendeu avanços e mesmo algumas vitórias, como o reconhecimento da constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa, a confirmação do poder do CNJ de investigar e punir irregularidades de juízes, o veto a candidaturas com contas de campanha reprovadas, a discussão de projetos para limitar o foro privilegiado e ampliar a responsabilidade de autoridades, bem como alguns sinais de mais diligência no Judiciário para o acolhimento e julgamento de ações contra a corrupção.



Tudo isso, porém, é muito pouco frente à pandemia de corrupção que o governo empreende com seu esforço de reprodução de poder. Isso é exposto todo dia no noticiário da imprensa crítica e nas redes sociais, dando conta da multiplicação de fraudes em concorrências, desvios de dinheiro público, aparelhamento, nepotismo e tantos outros vícios e malfeitos em todos os escalões.



Apesar disso, as universidades e o movimento estudantil seguem omissos. Não se pode, porém, dizer que o problema é totalmente ignorado neste estamento crucial para a reflexão e ação da sociedade. Ouvem-se sim algumas vozes, mas não são contra a corrupção e sim contra a imprensa crítica, que veicula os escândalos. E teorias para desqualificar quem protesta, rotulando esta atitude de hipocrisia moralista. De resto, o silêncio. Por quê?



As três pistas



Sabe-se que o PT cresceu e chegou ao poder junto com os movimentos sociais e que estes passaram a compartilhar os governos junto com o partido. Há avanços que podem ser atribuídos a este processo, principalmente nas políticas sociais. Mas a contrapartida tem sido a domesticação dos movimentos. Ou seja, o preço dos ganhos sociais está sendo o enfraquecimento e o controle dos movimentos pelas oligarquias, que facilmente assimilaram o PT e lhe impuseram não só a prática da corrupção como forma de governo, mas também a neutralização ou mesmo a anulação dos conflitos em nome da governabilidade. A UNE, por exemplo, não passa hoje de uma repartição pública. É uma caricatura melancólica e decrépita da entidade que, no passado, combateu pela democracia e por todas as grandes causas da sociedade brasileira. É esta a primeira pista.



Sabe-se também da grande influência do PT nas universidades, principalmente na administração das federais. Vale lembrar o manifesto dos reitores em apoio a Dilma nas eleições de 2010. Imagine a milionária combinação de verbas, patrocínios, bolsas, oportunidades e homenagens para alunos e professores, manipuladas com esse aparelhamento. Quanta moeda de troca! Pense também no potencial de patrulhamento de vozes discordantes. Esta é a pista número dois. Frente a isso, as irregularidades na gestão das universidades, descobertas já em 13 estados, são troco na conta do prejuízo para a sociedade.



E há a referida operação intelectual de indulgência à corrupção, entrincheirada na noção que atribui “ao moralismo a idéia de que o poder pode não ser corrupto”, que é a nossa terceira pista.



Podemos segui-la, desde 2005, quanto eclodiu o escândalo do Mensalão. Naquela ocasião, o livro ‘Global: biopoder e luta em uma América Latina globalizada’ ia para o prelo. E os seus autores, Antonio Negri e Giuseppe Cocco, incluíram nele uma nota mantendo a avaliação positiva do Governo Lula, sustentada na obra, mesmo que a acusação de corrupção fosse demonstrada nas investigações que começavam.



Moral e ética




O argumento central é a distinção entre moral e ética. A moral, sob esta visão, afirma-se a partir de princípios abstratos, enquanto a ética é inseparável do processo e dos sujeitos que a produzem. Daí, os autores assumem que “o poder é sempre corrupto, pois é fruto da corrupção da democracia”. E concluem: “o moralismo continua afirmando que a democracia representativa deve ser ‘depurada’, quando é a própria representação que implica corrupção”.



Mais tarde, em outro livro, ‘Goodbye Mr. Socialism’, Negri formula a tese da justificativa do Mensalão com uma narrativa mais própria do vale-tudo da política: “Pagaram sistematicamente aos pequenos partidos para que apoiassem as leis propostas por Lula ao parlamento. Quem é corrupto? O sistema. De outro modo, Lula não podia governar porque os partidos evangélicos eram pagos pela oposição de direita. Assim funciona o poder”.




Como supor, porém, que as regras do jogo da corrupção sejam ditadas pelos esclarecidos estrategistas do PT em nome da salvação do povo? E o outro da relação? Como considerar a corrupção sem o poder do corruptor? Que evidência pode ser mais forte da submissão do PT às oligarquias que o uso da corrupção como ferramenta privilegiada de reprodução do poder?



Cabe suspeitar, portanto, que temos aqui um caso de suspensão da crítica ao poder quando se trata do poder do amigo.



A influência de Antonio Negri no PT e nos setores da academia caudatários do partido, não deve ser menosprezada. A Filosofia reverbera pouco e em círculos muito restritos dos partidos e mesmo da academia. Mas não se deve desconsiderar a força do pensamento sobre a ação e a inação na política. Negri é um dos principais renovadores do pensamento político contemporâneo. Lamentavelmente, sua repercussão no Brasil decorre menos do que vem produzindo de mais potente – como os conceitos de trabalho imaterial, império, multidão e comum, entre outras contribuições para dar conta das mutações na vida contemporânea – do que de sua militância.



Omissão e cumplicidade



Não é livre de controvérsia a tentação do filósofo de transformar o mundo, buscando sentido prático para as idéias. Boa parte da produção filosófica debate exatamente o tema da ação. Embora seja da essência do filósofo político querer tornar carne o seu verbo, também é fato que a teoria é uma caixa de ferramentas que serve ao conhecimento. Querer que ela seja mais que isso pode deslocá-la à condição de crença religiosa e levá-la a inspirar calamidades, como a história demonstra. Outro pensador contemporâneo, Slavoj Zizek sugere: “Leia Marx. Mas leia a 11ª. tese sobre Feuerbach ao contrário, aquela que diz que os filósofos se limitaram a interpretar o mundo, quando devemos transformá-lo. Devemos parar de querer mudar o mundo às cegas, para interpretá-lo, saber o que ele é.”



Essa discussão nem ao menos é nova. Hannah Arendt, uma das mais influentes pensadoras do século passado, ao homenagear Martin Heidegger no livro ‘Homens em tempos sombrios’, constatou “uma tendência ao tirânico” nas teorias de quase todos os grandes pensadores: “não podemos sequer nos impedir de achar chocante, e talvez escandaloso, que tanto Platão como Heidegger, quando se engajaram nos afazeres humanos, tenham recorrido aos tiranos e ditadores”.




Não parece que esta constatação desqualifique ou mesmo diminua a tradição da Filosofia Política, cuja fundação é reivindicada para Maquivel, e na qual Negri e outros prestigiados pensadores contemporâneos se alinham. Mesmo sobrepondo as razões do estado ao moralismo e defendendo que é melhor vencer pelo ardil que pela força, Maquiavel não está necessariamente apoiando a corrupção de hoje no governo brasileiro e não pode ser responsabilizado pelos criminosos que se acobertam atrás do seu nome.




A obra de Negri certamente persistirá e continuará produzindo ação, da mesma forma que as obras de outros pensadores importantes. Mas inocentando a corrupção no Brasil, ele dá, aos que estão sob sua influência aqui – intelectuais, professores e estudantes – pretexto e fundamentação para a omissão e, portanto, para a cumplicidade com o que há de pior na política brasileira. Ironicamente, a indiferença é também uma das marcas da subjetividade produzida por relações aviltantes, exacerbadas na economia pós-industrial, que são criticadas pela teoria anticapitalista do próprio Negri.

Altamir Tojal

Por que os brasileiros não reagem?

O fato de que em apenas seis meses de governo a presidente Dilma Rousseff tenha tido que afastar dois ministros importantes, herdados do gabinete de seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva (o da Casa Civil da Presidência, Antonio Palocci – uma espécie de primeiro-ministro – e o dos Transportes, Alfredo Nascimento), ambos caídos sob os escombros da corrupção política, tem feito sociólogos se perguntarem por que neste país, onde a impunidade dos políticos corruptos chegou a criar uma verdadeira cultura de que “todos são ladrões” e que “ninguém vai para a prisão”, não existe o fenômeno, hoje em moda no mundo, do movimento dos indignados.






Será que os brasileiros não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética de muitos dos que os governam? Não lhes importa que tantos políticos que os representam no governo, no Congresso, nos estados ou nos municípios sejam descarados salteadores do erário público? É o que se perguntam não poucos analistas e blogueiros políticos.





Nem sequer os jovens, trabalhadores ou estudantes, manifestaram até agora a mínima reação ante a corrupção daqueles que os governam.

Curiosamente, a mais irritada diante do saque às arcas do Estado parece ser a presidente Rousseff, que tem mostrado publicamente seu desgosto pelo “descontrole” atual em áreas do seu governo e tirou literalmente – diz-se que a purga ainda não acabou – dois ministros-chave, com o agravante de que eram herdados do seu antecessor, o popular ex-presidente Lula, que teria pedido que os mantivesse no seu governo.





A imprensa brasileira sugere que Rousseff começou – e o preço que terá que pagar será elevado – a se desfazer de uma certa “herança maldita” de hábitos de corrupção que vêm do passado.





E as pessoas das ruas, por que não fazem eco ressuscitando também aqui o movimento dos indignados? Por que não se mobilizam as redes sociais?





O Brasil, que, motivado pela chamada marcha das Diretas Já (uma campanha política levada a cabo durante os anos 1984 e 1985, na qual se reivindicava o direito de eleger o presidente do país pelo voto direto), se lançou nas ruas contra a ditadura militar para pedir eleições, símbolo da democracia, e também o fez para obrigar o ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) a deixar a Presidência da República, por causa das acusações de corrupção que pesavam sobre ele, hoje está mudo ante a corrupção.





As únicas causas capazes de levar às ruas até dois milhões de pessoas são a dos homossexuais, a dos seguidores das igrejas evangélicas na celebração a Jesus e a dos que pedem a liberalização da maconha.





Será que os jovens, especialmente, não têm motivos para exigir um Brasil não só mais rico a cada dia ou, pelo menos, menos pobre, mais desenvolvido, com maior força internacional, mas também um Brasil menos corrupto em suas esferas políticas, mais justo, menos desigual, onde um vereador não ganhe até dez vezes mais que um professor e um deputado cem vezes mais, ou onde um cidadão comum depois de 30 anos de trabalho se aposente com 650 reais (300 euros).





O Brasil será em breve a sexta potência econômica do mundo, mas segue atrás na desigualdade social, na defesa dos direitos humanos, onde a mulher ainda não tem o direito de abortar, o desemprego das pessoas de cor é de até 20%, frente a 6% dos brancos, e a polícia é uma das que mais matam no mundo.





Há quem atribua a apatia dos jovens em ser protagonistas de uma renovação ética no país ao fato de que uma propaganda bem articulada os teria convencido de que o Brasil é hoje invejado por meio mundo, e o é em outros aspectos.





E que a retirada da pobreza de 30 milhões de cidadãos lhes teria feito acreditar que tudo vai bem, sem entender que um cidadão de classe média europeia equivale ainda hoje a um brasileiro rico.





Outros atribuem o fato à tese de que os brasileiros são gente pacífica, pouco dada aos protestos, que gostam de viver felizes com o muito ou o pouco que têm e que trabalham para viver em vez de viver para trabalhar.





Tudo isso também é certo, mas não explica que num mundo globalizado – onde hoje se conhece instantaneamente tudo o que ocorre no planeta, começando pelos movimentos de protesto de milhões de jovens que pedem democracia ou a acusam de estar degenerada – os brasileiros não lutem para que o país, além de enriquecer, seja também mais justo, menos corrupto, mais igualitário e menos violento em todos os níveis.





Este Brasil, com o qual os honestos sonham deixar como herança a seus filhos e que – também é certo – é ainda um país onde sua gente não perdeu o gosto de desfrutar o que possui, seria um lugar ainda melhor se surgisse um movimento de indignados capaz de limpá-lo das escórias de corrupção que abraçam hoje todas as esferas do poder.





Juan Arias - El País no Brasil